José Humberto Vilela Martins: o homem que ensinou o Brasil a produzir o boi que paga a conta
Mineiro de nascimento e pecuarista por vocação, fundador da Fazenda Camparino morreu aos 84 anos, deixando mais de seis décadas de seleção genética, conhecimento compartilhado e uma história que se confunde com a transformação da pecuária brasileira
Por Dhiony Costa e Silva | Domínio Rural

Eram quatro horas e seis minutos da manhã quando o telefone tocou.
Do outro lado da linha estava José Humberto Vilela Martins. Enquanto boa parte do Brasil ainda dormia, ele já pensava no próximo leilão, nos animais que seriam preparados, nos clientes que precisavam ser avisados e nas decisões que fariam a pecuária avançar.
“Liga para o Domingão. Vamos fazer o leilão em Mirassol”, determinou.
José Humberto não costumava esperar o dia começar. Ele começava o dia.
Aquela ligação, recordada entre risadas por quem conviveu com ele, ajuda a explicar o homem que a pecuária brasileira perdeu neste domingo, 16 de agosto de 2026. Aos 84 anos, Zé Humberto, como era conhecido em todo o país, partiu depois de dedicar mais de seis décadas à criação e ao melhoramento genético de bovinos.
Deixou a esposa, dona Edilza, filhos, netos, amigos, colaboradores e uma genética espalhada por rebanhos dentro e fora do Brasil. Mas seu legado não cabe apenas em genealogias, índices, premiações ou catálogos de leilões.
Ele deixou uma forma de enxergar a pecuária.
Antes dos números, havia o olhar
José Humberto nasceu em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, em uma família ligada à agropecuária. A infância transcorreu entre fazendas, animais, brincadeiras com os irmãos e o aprendizado de que a terra só responde a quem trabalha.
Quando criança, improvisava pequenas juntas de bois com gatos da fazenda. Montava, jogava futebol e observava tudo o que acontecia ao seu redor. Não era apenas curiosidade infantil. Já estava se formando ali uma das características que o acompanharia por toda a vida: a capacidade de prestar atenção.
Aos 18 anos, conduziu uma boiada durante cerca de 15 dias. O pai emprestou a tropa, ele reuniu os peões e seguiu viagem. Em uma das noites, comeu apenas arroz com mandioca.
Décadas depois, ainda se lembrava daquela refeição como uma das melhores de sua vida.
O episódio revela uma dimensão essencial de sua trajetória. Antes das centrais de inseminação, dos grandes leilões e dos animais valorizados, existiram estrada, poeira, limitação financeira e trabalho.
José Humberto começou em uma época na qual não havia avaliações genéticas acessíveis, ultrassonografia de carcaça, genômica ou grandes bancos de dados. A principal ferramenta do selecionador estava entre os olhos e a experiência.
“Quando eu comecei, era só no olho”, dizia.
Mas ele não transformou a experiência em resistência à mudança. Esse talvez tenha sido um dos seus maiores diferenciais.
Quando os números chegaram, ele os adotou. Quando surgiram as Diferenças Esperadas na Progênie, as DEPs, passou a utilizá-las. Incorporou inseminação artificial, fertilização in vitro, ultrassonografia de carcaça, avaliações genômicas e programas de melhoramento.
Ainda assim, nunca entregou a decisão inteiramente às planilhas.
Para José Humberto, os números precisavam conversar com o animal que estava diante dele. Fertilidade, habilidade materna, precocidade, musculatura, rusticidade, estrutura corporal e desempenho a pasto não poderiam existir apenas no papel.
Ele compreendeu algo que continua atual: tecnologia sem critério não substitui conhecimento.
Uma vida construída a quatro mãos
Nenhuma história sobre José Humberto está completa sem dona Edilza.
Os dois se conheceram ainda jovens. Ela, decidida e independente, foi uma das primeiras mulheres a dirigir automóvel em Ituiutaba. Ele já trabalhava com o pai e tocava fazenda em Goiás.
Quando o namoro começou a se firmar, Edilza deixou claro que não queria uma relação passageira. Queria compromisso.
José Humberto aceitou o desafio.
O casamento que se formou dali atravessou fazendas, mudanças de estado, dificuldades financeiras, expansão dos negócios, alegrias e perdas. Em diferentes momentos da trajetória, Edilza administrou a propriedade, cuidou dos filhos, acompanhou o marido e ajudou a sustentar as decisões da família.
Ela não foi apenas a mulher que permaneceu ao lado de um grande pecuarista. Foi parte da construção.
Quando o casal ainda enfrentava dificuldades em Goiás e José Humberto precisou vender o primeiro gado, Edilza procurou o pai. Ele comprou os animais e os entregou novamente em regime de parceria. Anos depois, na divisão, ficou com a cabeceira do rebanho.
José Humberto reclamou.
O sogro respondeu que havia feito a coisa certa: sem os melhores animais, José Humberto teria a oportunidade de produzir o gado que realmente desejava.
A contrariedade se transformou em ponto de partida. Foi a partir dali que ele aprofundou sua própria seleção.
As melhores histórias empresariais raramente são construídas apenas por acertos. Muitas vezes, surgem da maneira como alguém reage quando precisa recomeçar.
De Minas ao Mato Grosso
A trajetória geográfica de José Humberto acompanhou parte da expansão da própria pecuária brasileira.
Nascido em Minas Gerais, desenvolveu seu trabalho em Goiás, onde viveu um período de poucos recursos e infraestrutura limitada. Em Quirinópolis, ajudou a criar uma cooperativa em uma época na qual produtores precisavam transportar a soja até São Paulo para secagem.
Também esteve entre os pioneiros regionais na criação de cavalos Quarto de Milha e na realização de provas de apartação, rédeas e laço. Seus filhos cresceram nesse ambiente. A família não apenas possuía animais: vivia a criação.
Com o tempo, as propriedades em Goiás já não ofereciam espaço suficiente para os filhos trabalharem e para o projeto crescer.
José Humberto tomou então uma das decisões mais importantes de sua vida: seguir para Mato Grosso.
Dona Edilza concordou, mas estabeleceu uma condição — nenhum filho ficaria para trás. A família venderia o que possuía e começaria unida no novo lugar.
Na década de 1990, chegaram à região de Cáceres, próximo à fronteira com a Bolívia. Encontraram terras brutas, distâncias maiores e uma estrutura que ainda precisava ser construída.
Ali, a Fazenda Camparino ganhou escala e identidade.
A mudança não representou apenas a compra de uma nova propriedade. Foi uma aposta no futuro da pecuária do Centro-Oeste. José Humberto percebeu que aquela região, marcada pela presença de grandes rebanhos de cria, oferecia as condições para produzir e comercializar reprodutores em escala.
Ele enxergou o mercado antes que o mercado estivesse completamente formado.
O Zebu que paga a conta
José Humberto admirava a beleza racial, mas recusava a ideia de selecionar um animal apenas pela cabeça delicada, pela orelha bonita ou pelos resultados de pista.
Para ele, o gado precisava trabalhar.
A vaca tinha que emprenhar, parir, produzir leite e desmamar um bom bezerro. O touro precisava transmitir fertilidade, precocidade, musculatura e capacidade de adaptação. O animal deveria produzir carne em menos tempo, com eficiência e dentro das condições reais das fazendas brasileiras.
Essa filosofia foi resumida em uma expressão que se tornou a assinatura da Camparino:
“O Zebu que paga a conta.”
Não era apenas uma frase de marketing. Era um critério de seleção.
José Humberto se distanciou do modelo de animais excessivamente altos e tardios. Buscou um bovino de tamanho moderado, profundo, com costelas arqueadas, lombo amplo, posterior desenvolvido, precocidade de acabamento e capacidade de produzir mais quilos de carne por hectare.
Em outras palavras, queria aproximar genética e rentabilidade.
A Fazenda Camparino se consolidou principalmente na seleção do Nelore e do Nelore Mocho, mas a inquietação de seu fundador não permitiu que o projeto ficasse restrito a uma única raça. José Humberto também trabalhou com Gir, Sindi e cavalos Quarto de Milha.
Entre os reprodutores que marcaram a história do criatório estão nomes como Ímpeto, Legume, Ícone, Calibre, Coronel, Ford e outros animais que ajudaram a levar a genética Camparino para diferentes regiões do país.
Em 2019, a seleção alcançou um momento histórico na ExpoZebu, com recordes nas categorias de machos e fêmeas. Os animais do criatório passaram a integrar algumas das principais centrais de coleta de sêmen, multiplicando sua influência sobre a pecuária nacional.
Mas, para José Humberto, nenhum resultado era definitivo.
Quando alguém dizia que o rebanho havia alcançado a perfeição, ele respondia que o boi que desejava produzir ainda estava em sua cabeça.
O homem do olho e da ciência
José Humberto viveu uma aparente contradição.
Era um homem formado pela experiência, mas fascinado pela tecnologia. Defendia o olho do criador, mas participava de programas de avaliação genética. Valorizava a tradição, mas cobrava dos técnicos aquilo que ainda não existia.
Se percebia uma seca severa se aproximando, preparava reservatórios de água, produzia feno e organizava a suplementação antes que o pasto acabasse.
Na reprodução, utilizou a fertilização in vitro para reduzir o intervalo entre gerações e multiplicar suas principais matrizes. Uma vaca que naturalmente produziria um bezerro por ano poderia deixar 10, 20 ou até 30 descendentes.
Na seleção, avaliava animal por animal ao desmame. Cada fêmea passava pelo curral. Os acasalamentos eram planejados individualmente. Nutrição, reprodução, manejo e genética eram discutidos em conjunto.
Ele ouvia técnicos, consultores e pesquisadores. Depois, decidia.
Era assim que preservava o “modelo Camparino”.
Ao combinar conhecimento empírico e ciência, ajudou a demonstrar que tradição e inovação não precisam disputar espaço. Quando utilizadas com equilíbrio, uma fortalece a outra.
Uma escola chamada Camparino
A contribuição de José Humberto não pode ser medida apenas pelo número de animais produzidos.
A Camparino tornou-se uma escola.
Veterinários, técnicos, funcionários, consultores, estudantes e criadores encontraram na fazenda um ambiente no qual o conhecimento era transmitido durante o trabalho, nas visitas aos currais e nas conversas acompanhadas por café e pão de queijo.
José Humberto tinha a capacidade de observar uma pessoa com pouca experiência e enxergar o profissional que ela poderia se tornar.
Abriu portas. Incentivou estudos. Desafiou equipes. Compartilhou o que sabia.
Profissionais que passaram pela propriedade relatam que um dia na Camparino poderia valer por meses de estágio em outros lugares. Não apenas pela quantidade de tecnologias utilizadas, mas pela disposição do anfitrião em explicar os critérios por trás de cada decisão.
Quem chegava para aprender encontrava um homem direto, exigente e atento aos detalhes. Encontrava também alguém disposto a dividir décadas de experiência sem transformar o conhecimento em privilégio.
Firmeza e generosidade
A personalidade de José Humberto também carregava contrastes.
Era duro na seleção e generoso com as pessoas. Exigia eficiência, mas não admitia ganhar dinheiro provocando prejuízo injusto a alguém. Gostava de negócios bem-feitos, mas colocava o bem-estar dos animais acima de uma venda.
Certa vez, recusou-se a vender um garanhão Quarto de Milha quando soube que o comprador pretendia transportá-lo por uma longa distância, junto com outros animais e sem os cuidados necessários. O negócio estava praticamente acertado, mas José Humberto entendeu que o cavalo sofreria durante a viagem.
Preferiu perder a venda.
Em outro momento, comprou uma área vizinha à fazenda e dividiu parte da terra entre seis funcionários antigos, como reconhecimento pelos anos de trabalho e dedicação.
Um deles sonhava em comprar dez alqueires. Recebeu 50.
Era a maneira de José Humberto demonstrar que o patrimônio construído não havia sido resultado de um esforço solitário.
Seus leilões também destinavam recursos a hospitais e instituições beneficentes. Quando identificava uma causa séria, conduzida por pessoas corretas, dificilmente virava as costas.
Essa talvez seja a parte mais difícil de registrar em índices: a capacidade de transformar o sucesso pessoal em oportunidade para outras pessoas.
O legado permanece no rebanho e nas pessoas
José Humberto Vilela Martins morreu em 16 de agosto de 2026, aos 84 anos.
Associado da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu desde 1975, recebeu o Mérito ABCZ durante a ExpoZebu de 2013. Foi presença constante em Uberaba, nos debates técnicos, nos leilões e nos momentos que ajudaram a construir a pecuária zebuína moderna.
Sua sucessão já vinha sendo preparada. Os netos Mateus e Natália Martins assumem a responsabilidade de dar continuidade a um trabalho que começou há mais de seis décadas.
Eles herdam terras, animais, registros e linhagens genéticas. Mas recebem, sobretudo, uma filosofia.
A melhor porteira de uma fazenda, dizia José Humberto, é aquela utilizada para apartar o que não serve. A afirmação falava sobre seleção animal, mas também traduzia sua maneira de viver: observar, escolher, corrigir e continuar avançando.
O homem que começou selecionando apenas com os olhos terminou utilizando algumas das tecnologias mais modernas disponíveis. O menino que brincava com animais na fazenda tornou-se um dos mais respeitados selecionadores do país. O mineiro que atravessou Goiás e recomeçou em Mato Grosso ajudou a levar a genética brasileira para além das fronteiras nacionais.
José Humberto não deixou apenas um rebanho melhor.
Deixou pessoas melhores preparadas para continuar o trabalho.
Na madrugada seguinte à sua partida, o telefone já não tocou às quatro horas e seis minutos. Mas, em centenas de fazendas, havia um touro, uma matriz, um técnico, um funcionário ou um produtor carregando alguma parte do que ele construiu.
É assim que alguns homens permanecem.
Não apenas nas fotografias ou nas homenagens, mas naquilo que continua produzindo depois deles.
José Humberto passou a vida tentando construir o boi que pagava a conta.
Ao partir, deixou uma conta que a pecuária brasileira jamais conseguirá pagar por inteiro: a da gratidão.
Nota da redação: Esta reportagem biográfica foi produzida com base nos depoimentos e relatos apresentados em “Terra Pecuária – Documentário Uma Vida pela Pecuária”, homenagem dedicada à trajetória de José Humberto Vilela Martins. O documentário está disponível no YouTube.
