Incêndios, golpes e insegurança: os riscos que começam fora da porteira desafiam o produtor rural
Especialistas alertam que gestão de riscos, cooperação entre produtores e prevenção tornam-se tão importantes quanto produtividade no agronegócio
Por Dhiony Costa e Silva | Domínio Rural
Produzir mais já não é o único desafio do produtor rural brasileiro. Em um cenário marcado por incêndios criminosos, fraudes na comercialização, insegurança no campo e mudanças climáticas, especialistas defendem que a gestão de riscos passou a ocupar um papel estratégico dentro da propriedade rural.
A discussão ganhou força nesta semana durante a coluna CBN Agro Rondônia, que trouxe como ponto de partida um caso real envolvendo uma produtora rural de Rondônia que enfrentou um incêndio criminoso nas proximidades de sua propriedade.
Na ocasião, produtores vizinhos precisaram se mobilizar rapidamente para conter as chamas e evitar prejuízos ainda maiores.
Segundo especialistas, situações como essa demonstram que muitos dos maiores riscos da atividade agropecuária não surgem dentro da fazenda, mas fora dela.
O fogo destrói mais que a pastagem
Os impactos de um incêndio vão muito além da vegetação consumida pelas chamas.
Além da perda de pastagens, lavouras e cercas, o fogo compromete a matéria orgânica, reduz a microbiota do solo, diminui sua fertilidade e pode afetar a produtividade por várias safras.
Outro fator preocupante é o custo da recuperação da área, que muitas vezes supera o investimento necessário para ações preventivas.
Para os especialistas, a prevenção deve envolver tanto investimentos na propriedade quanto maior integração entre vizinhos e instituições públicas.
Organização entre produtores faz diferença
A criação de grupos de comunicação entre produtores tem sido apontada como uma ferramenta simples e eficiente para aumentar a segurança no meio rural.
Além de facilitar o combate rápido a incêndios, essas redes permitem compartilhar informações sobre movimentações suspeitas, tentativas de invasão, furtos e outros problemas recorrentes no campo.
Em diversas regiões do país, grupos organizados em aplicativos de mensagens já auxiliam na mobilização de produtores, brigadas voluntárias e órgãos públicos.
O risco também está na comercialização
Outro alerta importante envolve a venda da produção.
Com margens apertadas e juros elevados, um único golpe pode comprometer o fluxo de caixa de uma propriedade.
Especialistas orientam que produtores pesquisem o histórico de compradores, verifiquem referências comerciais e priorizem negociações com empresas reconhecidas no mercado.
Em muitos casos, a busca por preços acima da média pode esconder operações de alto risco.
Gestão de riscos passa a ser diferencial competitivo
Durante muitos anos, produtividade foi o principal indicador de eficiência dentro da propriedade rural.
Hoje, entretanto, a capacidade de identificar, prevenir e responder rapidamente aos riscos tornou-se igualmente importante.
Isso inclui planejamento, uso de tecnologia, monitoramento, comunicação entre produtores, regularização documental e fortalecimento das relações institucionais.
A tendência é que propriedades mais preparadas para enfrentar eventos inesperados consigam manter maior estabilidade econômica e operacional.
Cooperação como estratégia
Se há uma característica histórica do campo brasileiro, ela é a cooperação.
Mutirões, ajuda entre vizinhos e troca de informações sempre fizeram parte da vida rural.
Especialistas acreditam que esse espírito comunitário continuará sendo uma das principais ferramentas para enfrentar os novos desafios do agronegócio.
Mais do que produzir com eficiência, proteger pessoas, patrimônio e conhecimento tornou-se condição essencial para garantir a sustentabilidade da atividade.
Análise
O agronegócio brasileiro é referência mundial pela capacidade de produzir alimentos, fibras e energia.
O próximo salto competitivo pode não estar apenas na genética, na mecanização ou na tecnologia.
Pode estar na capacidade de antecipar riscos, fortalecer redes de cooperação e proteger aquilo que foi construído ao longo de décadas.
Porque, no cenário atual, produzir bem continua sendo fundamental.
Mas proteger a produção tornou-se uma estratégia indispensável.
